ASSENTAMENTO UTOPIA E LUTA – 15 ANOS RESISTINDO!

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O movimento Utopia e Luta surgiu durante o Fórum Social Mundial, em 2005, a partir da Ocupação de um prédio público do INSS, abandonado havia 17 anos, na Avenida Borges de Medeiros, centro histórico de Porto Alegre. Partiu de processos autogestionários de organização interna e enfatizou  ações voltadas para articulação com outros movimentos sociais, trabalhos em rede, e parcerias com a sociedade e gestores públicos para a elaboração e execução de projetos e mutirões. Logrou após poucos anos de existência e ocupação, a conquista de resultados concretos, sendo contemplados com um Edital da Petrobrás em 2009, o que os garantiu  recursos iniciais para implementação no espaço de uma padaria comunitária, horta hidropônica, sala para corte e costura, lavanderia comunitária e oficina de serigrafia.
Assim, em 22 de maio de 2009 o prédio foi oficialmente inaugurado com esses núcleos de produção econômica, sendo os recursos ganhos neste primeiro edital transformados concreta e simbolicamente em conscientização e formação de massa crítica.
“O objetivo revolucionário”, segundo o ativista e um dos idealizadores da ocupação Eduardo Solari, “é a toma do território, e a vivência, a semeadura de um sistema diferenciado, autogestionário, gerador de recursos”. Caminhando pelos corredores do prédio, podemos ler a seguinte frase, pintada na parede: “O caminho é longo, e em partes desconhecido. Conhecemos as nossas limitações. Faremos o homem do século XXI, nós mesmos. Nos forjaremos na ação cotidiana, criando um homem novo, com uma nova técnica”. E acreditamos ser exatamente esta a motivação encontrada na ação que é desenvolvida coletivamente, pelos sujeitos desta ação social que seguem tocando a luta adiante. Luta cotidiana de sonhos e utopias.
Formas de organização do grupo:
Em tempos de paradoxos, o movimento enfatiza a importância da consciência, de ideologias apartidárias, baseadas na solidariedade da ação coletiva e da autogestão dos indivíduos, que terão suas estruturas de poder não hierarquizadas recusando-se portanto, à cultura do assistencialismo moderno. O surgimento de práticas autogestionária e moradias coletivas, anticapitalistas, dissolve a necessidade de atravessadores e chama a atenção para a insurgência de mudanças no âmago estrutural da sociedade moderna capitalista, vai de encontro ao conceito de Maria da Glória Gohn, da análise dos paradigmas dos novos movimentos  sociais (NMS). Segundo GOHN, “Uma das contribuições da abordagem contemporânea dos NMS foi ter chamado a atenção para o significado das mudanças morfológicas na estrutura e na ação dos movimentos, relacionando-se com transformações estruturais na sociedade como um todo. As mudanças são portanto, fontes dos movimentos”(p.125).
Exemplos mais extremos deste tipo de experiência, atuando numa escala maior e em nível de maior complexidade são encontrados na resistência das Comunidades Zapatistas do sul do México, em que comunidades defendem uma gestão autônoma e independente do Estado, o controle do território, a participação direta da população, a partilha da terra e da colheita. O cerne deste formato de organização é, antes de tudo, uma alteração lenta e complexa do que as pessoas entendem como sua identidade e cultura, ou até mesmo a própria tentativa de preservação de suas tradições frente aos fenômenos da globalização. A ruptura com níveis hierárquicos de liderança está diretamente associada á sustentabilidade ambiental, e á autonomia política, econômica e cultural. As semelhanças entre os dois  movimentos é feita a partir de um fluxo  que se origina as margens do sistema capitalista e que busca recriar sua participação no mundo a partir de um viés alternativo ao que o sistema vigente nos propõe. Ainda segundo análise feita por GOHN, sobre os paradigmas dos NMS, pode-se afirmar que o Movimento Utopia e Luta se destaca na luta, pelo fato que, contrapõe-se a cultura política vigente do Estado, e em contrapartida ainda oferece alternativas concretas, viáveis e autônomas à este poder, como as práticas autogestionárias nos territórios coletivos.
O próprio território coletivo, com seus núcleos de produção geram a inclusão dos participantes da comunidade com vistas à multiplicação da experiência e das práticas de sustentabilidade econômica. Para viabilizar o projeto, é fundamental a transmissão dessas metodologias de formação de pessoas, devendo ser esta, uma ação inclusiva e radicalmente participativa. Assim se distinguem no prédio, três áreas de influência: a Cooperativa Coopsul, o Movimento Utopia e Luta e o Condomínio.
A Cooperativa Coopsul atua diretamente na parte de qualificação técnica (cursos e oficinas para moradores do prédio e público externo) e a formação sobre gestão de empreendimentos solidários, imprescindíveis para a consolidação e o fortalecimento dos núcleos de produção (padaria comunitária, horta hidropônica, sala com máquinas overloque para corte e costura, lavanderia comunitária e oficina de serigrafia). A Coopsul também exerce importância na frente cultural, disponibilizando um espaço de integração para o desenvolvimento de oficinas de  teatro, música, dança e capoeira, o Salão conhecido como “Quilombo das Artes”. Nele, um grupo de ativistas do Bloco de Lutas, reunia-se com frequência para debater as questões referentes aos planejamentos dos protestos iniciais que precederam a avalanche de manifestações por diversos estados do Brasil, em junho de 2013, diz Nanci Araújo, ativista engajada na Cooperativa. Ela afirma que movimentos autônomos, autogestionários e apartidários são mais que bem vindos para frequentarem o Quilombo. Ali também acontece saraus e projeções de documentários e filmes engajados com as causas sociais.
Já pelo eixo do Movimento Utopia e Luta vejo que ele toca mais diretamente a parte ideológica, abstrata, estratégica e ética, que pauta a luta pela moradia perpassando por outras esferas, que não a lógica da especulação imobiliária ou a do estado assistencialista. Nele articula-se os conceitos chaves do “Movimento” e, a partir daí, direciona-se as ações que visam a atender as demandas ou objetivos imediatos. Desenvolve-se neste âmbito, articulações com outros movimentos sociais, trabalhos em rede, parceria com a sociedade civil organizada como professores e alunos da UFRGS, ONG’s, Federações e Sindicatos, parcerias com gestores públicos, e elaboração e execução de seminários, projetos e mutirões.
A auto organização dada pela área do condomínio, é cenário de desafios da realização de todas as tarefas de gestão da comunidade, entenda-se aí o sistema de escalas e divisão de responsabilidades entre os moradores.

Território Popular e objetivos futuros:

É da compreensão dos participantes que os territórios coletivos são sim espaços de poder popular. “Todos os núcleos – padaria, lavanderia, corte e costura, serigrafia e hidroponia, atuam e se qualificam, constituindo núcleos de formação em empreendedorismo e economia solidária, boas práticas em saúde, segurança do trabalho e saúde do trabalhador, viabilidade econômica, oficinas em manutenção de maquinário e gestão de condomínios”. A potencialidade da ação desse movimento extrapola as noções de paradigmas dos novos movimentos sociais ao passo em que oferece uma resistência pacífica e defensiva frente aos processos de extensão da racionalidade técnica dentro das esferas da vida social contemporânea, posicionando-se contra a excessiva racionalização da vida, agindo em solidariedade, devagar frente a todos os desafios, mas em ritmo constante.

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