MIL SAMBAS PERDIDOS: Dona Conceição e seu saber popular

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Falar de saber popular é falar de um saber ancestral pertencente à coletividade. Construção humana imemorial. É habitus, diria Bourdieu, ao descrever o produto/processo cultural da história que a própria história nos faz esquecer, de tão longínquo. Fenômeno encantador, na verdade plural, os saberes populares passam por vezes esquecidos, invisibilizados, silenciados e discriminados. Todo nós, latino-americanos, africanos e asiáticos, com nossos passados coloniais e presente imperialista, sabemos o porquê.

Deslegitimar o saber popular, os saberes populares, tem sido a tônica dos processos de dominação. Subjugar línguas, jeitos de viver, processos sociais, formas de organização social, sistemas de crenças e mesmo a sustentabilidade, a alimentação, a tomada de recursos naturais, é condição para os processos de dominação.

Em alguns casos, diversos atravessamentos concorrem para o silenciamento. Além dos processos de dominação cultural entre invasores e invadidos, diversos outros mecanismos de opressão ocorrem dentro de uma mesma matriz cultural: a dominação de classe, a opressão de gênero, a intolerância religiosa, o racismo estrutural, a divisão sócio-geográfica entre centro e periferia, dentre outras diversas formas de exclusão e perpetuação da desigualdade e da miséria. Um elemento chave para compreender estes mecanismos é a escravização.

O que isto tem a ver com música? Tudo. Vou reproduzir um trecho de um capítulo de livro escrito por mim, intitulado “Cantos Regionais: a Música e a Fazenda”, publicado no livro “A Fazenda e a Filosofia”, organizado pelo filósofo Ronie Alexsandro Silveira, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia. Neste trabalho, chamo a atenção para o fato de que uma das grandes contribuições imateriais produzidas pela mão de obra africana foi a música popular. Numa conversa informal com o músico Manuel Monestel, etnomusicólogo, cantautor do grupo Cantoamérica, pesquisador e difusor da obra de Walter Ferguson, também professor da Universidade da Costa Rica (UCR), ele resumiu a relação entre música e africanidade: ‘a história da música popular é a história da diáspora africana’. 

De fato, blues, lundu, corta-jaca, samba, spiritual, son, salsa, bolero, tango, milonga, jazz, choro, afoxé, funk, rock, rhythm’n’blues, reggae, candombe, pagode, para mencionar nem um décimo da diversidade musical pan-americana, têm a sua própria Tia Ciata, emblemática representante das baianas migradas ao Rio de Janeiro que, além de mães de santo, foram essenciais na preservação e difusão do samba, ao receberem em suas casas nomes como Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô e outros. Vale conferir os livros “Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro”,  de Roberto Moura; “Mistério do Samba”, de Hermano Vianna; e “Feitiço Decente”, de Carlos Sandroni; para compreender a densidade histórica e sociológica do fazer musical destas mulheres.

O Brasil é cheio de tias Ciatas. Uma delas, vive na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil. Pelotas vem sendo popularizada pelo seu palíndromo “Satolep”, no imaginário do compositor Vitor Ramil, cuja obra para a canção latino-americana é de grande influência aos cantautores surgidos na virada dos anos 1990 ao ano 2000. Trata-se Dona Conceição Rosa Teixeira, a quem chamo carinhosamente de Dona Conceição dos Mil Sambas. Até então, compositora desconhecida, apenas a mãe comunitária famosa por ter criado mais de cem filhos, também conselheira pessoal e guia espiritual das pessoas que a procuram em seu terreiro, agora desativado, com a permissão dos orixás e caboclos. Ela é possivelmente uma das maiores compositoras vivas do Brasil. Conceição compôs mais de mil sambas. Não somente sambas, mas também valsas, tangos, bossas, canções regionais gaúchas. Vamos deixar Dona Conceição dos Mil Sambas descrever-se a si mesma, em sua música “Maquiagem do Tempo”. YouTube.

Vejam bem que, mesmo falando a de si mesma, Conceição não deixa de pensar a condição humana. A sua consciência da condição feminina, é também notável. Ouçam a canção Azoar, e percebam temas como empoderamento feminino, revanche e deboche, sobretudo resistência. Tudo isto com saltos melódicos típicos do chorinho, antecipações e uma harmonia de tensões e repousos apresentados através de dribles linguísticos perceptíveis mesmo a capella com batucada de mão. Vejam como ela fez a canção: no verso de um rótulo de amido de milho. Ouçam Azoar, com participação de Simone Rasslan (Soundcloud).

E seu eu disser que ela não toca nenhum instrumento musical, apenas se acompanha com voz e batucada de mão, vocês acreditariam? Essa letra de música, escrita numa caixa de Maizena, funciona, para Conceição, como uma verdadeira partitura. Ao iniciar a leitura, a mão começa a bater, os lábios cerrados emulam uma melodia interna e, com os olhos fechados e o corpo tomado pela lembrança, Conceição se transpõe ao momento do ato criativo. Os rabiscos parecem ilustrar em si notas musicais, cifras de acordes e até mesmo melodias de arranjo. O jeito de entender sua música, em termos de análise musical, foi transcrever como uma forma de estudar e incorporar sua musicalidade tão intensa. Uma forma de mostrar, pra vocês, no papel ou na tela, o som produzido por Dona Conceição. Vejam um trecho de “Falta um Pedaço de Mim”. Não precisa saber ler música, apenas vejam que, onde tem notas musicais “normais”, com letra embaixo, é a canção. Quando as notas estão demonstradas em “x” e circuladas para melhor visualização, trata-se de arranjo, ou seja, a alusão a melodias instrumentais, contracantos. (Soundcloud)

O saber popular, da música popular especificamente ao que me parece, possui essa característica de totalidade. Ele é transversal, simultâneo. Não existem divisões entre compositor e intérprete, entre cantor e arranjador. Vejam sua maestria em “Linda Mascarada”, marchinha de carnaval vencedora do esquecido concurso de 1981, com participação de Marcelo Delacroix (Soundcloud)

Agora, reconhecida com o Prêmio Culturas Populares Dona Conceição pode ser ouvida em https://soundcloud.com/dona-conceicao-dos-mil-sambas/sets/cd-ao-vivo e https://donaconceicaodosmilsambas.wordpress.com/. O livro virtual está disponível gratuitamente, basta pedir para [email protected]  ou via https://www.facebook.com/donaconceicaodosmilsambas

Conceição Rosa Teixeira literalmente incorpora uma tradição musical que evoca musicalidade de matriz banto na música brasileira (Kazadi Wa Mukuna) em suas interações e atravessamentos com raízes, culturas e influências das demais ancestralidades de nossa cultura. O saber popular é denso, sofisticado, complexo e, sobretudo, generoso. “Ninguém quer abafar ninguém”, diria Noel Rosa, sabedor da multiplicidade que as formas de inteligência coletiva representam.

 Leandro Maia é cantor e compositor. Doutor em Música (Bath Spa University/Reino Unido). Mestre em Letras (UFRGS). Especialista em Letras (Unirriter). Licenciado em Música (UFRGS). Prêmio Ibermúsicas de Composição de Canção Popular. É autor de Palavreio (2008), Mandinho (2012) e Suíte Maria Bonita e Outras Veredas (2014). www.leandromaia.com.br

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