Soberania comunicacional para a autodeterminação dos povos | Parte 1.

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Os tempos mudaram e, como afirmaram um mês atrás em Desacato.info a diretora de Página 12, Nora Veiras, o jornalista de política Fernando Borroni, de C5N e AM750, a diretora geral de Brecha de Uruguai, Mariana Contreras, o jornalista de Ópera Mundi, de Brasil, Breno Altman, o ex-conselheiro da EBC de Brasil, Lalo Leal Filho, a Diretora do Portal Desacato, Tali Feld Gleiser e o professor de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Samuel Lima, os governos progressistas que passaram, ou mesmo aquele que governa hoje na Argentina, não perceberam.

Com exceção da República Bolivariana da Venezuela, com Chávez primeiro e Maduro depois, e os governos de Nestor e Cristina Kirchner na Argentina, a compreensão da importância tática e estratégica da comunicação não existiu, menos ainda a percepção de quão decisiva é a Soberania Comunicacional para nossos povos, desde o primórdio das primeiras e ainda frágeis independências. Também a compreensão da importância tática e estratégica da comunicação na batalha cultural contra o discurso uniforme das organizações de comunicação do sistema de dominação.

Desde nossa experiência cotidiana na tarefa do Portal Desacato temos observado alguns assuntos que iremos destacando com este e outros artigos sucessivos.

O primeiro assunto é o medo dos partidos de esquerda à mídia conservadora e a desculpa de ter que aceitá-los “para poder falar para a massa”.

Segundo o jornalista Ricardo Kotscho, hoje colunista da Folha de São Paulo, e ex-assessor de imprensa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no livro “Do Golpe ao Planalto – Uma vida de repórter”, Lula antes de iniciar seu primeiro mandato presidencial em 2003 “já havia mantido encontros e participado de almoços com os dirigentes dos principais meios de comunicação, mas se resistia a atender o convite da Folha para o tradicional almoço com os diretores, editores e repórteres especiais”. De fato, soube-se pelo próprio Kotscho que o resultado do encontro não foi dos melhores, mas aconteceu. A família Frias, dona da Folha de São Paulo, foi colaboradora material da ditadura brasileira que, sob a tutela de Washington, manteve o país preso até o retorno à democracia.

Em 2010 houve outro encontro, desta vez de uma iminente presidenta com o coração da mídia conservadora. Dona Lily Marinho, já falecida e ex – companheira dos últimos anos do patriarca das Organizações Globo, Roberto Marinho, recebeu em um ágape com mulheres do jet set carioca, a presidenta Dilma Rousseff, que seria meses depois a primeira mulher a governar o Brasil. Segundo escreveu à época o jornalista Luis Nassif, “Lily jamais teve ingerência em qualquer negócio das Organizações Globo. Nem era mãe dos filhos” do magnata. Para Nassif, de tal modo a importância desse almoço foi simbólica: “reside em derrubar preconceitos da velha elite carioca contra a candidata do PT”, escreveu Nassif. Era a mesma Dilma que a Globo encarregou-se de tirar do poder em acordo com os mais podres interesses das oligarquias brasileiras, um congresso majoritariamente venal, um judiciário a serviço das elites e da agenda intervencionista dos Estados Unidos.

Alguns militantes das esquerdas interpretaram esses encontros, com um intervalo de 8 anos e dois mandatos presidências, como um sinal de acomodação às lógicas da chamada “Casa Grande”. Também com o legítimo receio de que os dois ex-presidentes levariam em consideração, além do desejável, a mídia inimiga do povo, golpista e representante dos interesses das grandes multinacionais de ocidente, contra os interesses soberanos do Brasil. Assim foi e assim concluíram anos depois, Lula da Silva e Dilma Rousseff, execrados diuturnamente pelos meios de comunicação “de massa” até, o primeiro cumprir uma injusta prisão e a segunda derrocada pelo tripé parlamento -poder judiciário – mídia.

Os dirigentes da esquerda de primeiro e segundo escalão nacionais, estaduais ou locais, sempre que consultados sobre sua relação com a mídia conservadora, explicam sua necessidade de que não se fechem as torneiras da “grande mídia” para poderem falar para as maiorias, o que não deixa de ser real dada a correlação de forças entre a mídia dominante e a independente e alternativa. E essa convicção de que é necessário usar o megafone do inimigo de classes para falar com o povo tem perdurado sem variáveis, incluso perante o surgimento de uma quantidade expressiva de novos veículos independentes e do campo popular, especialmente através da internet.

Vale um singelo exemplo contemporâneo vivenciado pelo Portal Desacato durante a cobertura da construção da maior frente política já formada no país para as atuais eleições municipais, na cidade de Florianópolis, capital do rico estado de Santa Catarina, sul do Brasil. Só Desacato cobriu todo o processo de conformação dessa frente, e como era previsível, teve acesso prévio à resolução que consolidou a Frente, bem antes que a mídia conservadora da cidade. Assim sendo, a notícia da consolidação da unidade dessa Frente foi dada primeiro em nosso portal, autodeclarado de esquerda desde seu início, em 2007. A presidenta do Partido dos Trabalhadores anunciou ao vivo no portal a boa nova: “Temos a maior frente da história na cidade e a maior frente do país.” Pois bem, uma das principais candidatas a vereadora do seu partido, uma hora depois, curtiu a entrevista com grande alegria salientando que a informação era verdadeira porque estava na rede NSC, repetidora da Globo e na Folha de São Paulo, da família Frias. Curtiu isso na própria página do Portal Desacato, abaixo da fala da sua presidenta em exclusiva para Desacato. Ou seja, acreditava na notícia, não pelo que acabava de dizer sua presidenta municipal, mas porque tinha saído nas redes conservadoras.

De tal modo entende a imensa maioria dos dirigentes da esquerda brasileira que se deve falar com a massa através da mídia inimiga de classe, na qual, apesar das críticas cotidianas que eles mesmos fazem, pasmemos, acreditam. Apesar dos golpes, das mentiras, das fraudes eleitorais, das perseguições, a esquerda ainda considera melhor usar o atalho e falar ao povo através da mídia conservadora e não em consolidar uma mídia alternativa e independente que seja capaz de ajudar a liberar o povo dos grilhões informativos dos interesses das elites.

Dificilmente haverá uma comunicação soberana se a esquerda não começa a discutir seriamente a importância da comunicação em sua totalidade. Também não adianta como não adiantou no Brasil, construir empresas públicas de comunicação, canais de televisão abertos, o que for, se depois se deixa essas ferramentas morrer à míngua e se desvirtua seu uso social, informativo e pedagógico em favor de uma sociedade livre e diferente desta que se tem. Enquanto isso as grandes mídias conservadoras mantém e ampliam suas capacidades de controle social através da comunicação.

Continuaremos com estes assuntos em um artigo seguinte onde nos debruçaremos sobre a ilusão dos dirigentes de ter uma mídia obsequente e voluntarista ao seu serviço, mesmo sacrificando a credibilidade dos veículos não só independentes e alternativos, senão da própria esquerda institucional e das categorias sindicais.

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